Design pode dar novo destino aos resíduos da indústria da moda
Na indústria do vestuário, a escolha dos tecidos, a criação dos modelos, a elaboração dos moldes, o encaixe para o corte e o planejamento da produção são etapas que podem determinar a quantidade de material que será aproveitada ou transformada em resíduo. Por isso, incorporar critérios de sustentabilidade ao design...
Na indústria do vestuário, a escolha dos tecidos, a criação dos modelos, a elaboração dos moldes, o encaixe para o corte e o planejamento da produção são etapas que podem determinar a quantidade de material que será aproveitada ou transformada em resíduo. Por isso, incorporar critérios de sustentabilidade ao design pode ser uma estratégia para reduzir perdas e tornar os processos produtivos mais eficientes.
O impacto econômico desse desperdício ajuda a dimensionar a questão. Um levantamento citado em uma dissertação sobre sustentabilidade na indústria do vestuário aponta que um quilo de tecido pode render aproximadamente três metros de material e representar R$ 60 em desperdício. Em uma escala de 100 quilos, são 240 metros e R$ 6 mil que podem deixar de ser aproveitados.
Os retalhos estão entre os principais resíduos gerados pelas confecções. Além do volume, existe um desafio relacionado à destinação: trata-se de material proveniente de uma das matérias-primas de maior valor utilizadas pelo setor. Uma das possibilidades para enfrentar esse problema está no próprio desenvolvimento do produto. A análise do ciclo produtivo permite identificar onde ocorrem perdas e estabelecer medidas para evitá-las desde as primeiras etapas. Na criação, por exemplo, a avaliação dos estoques pode permitir o aproveitamento de tecidos, pedrarias e rendas já disponíveis, inclusive com o tingimento de materiais para adequá-los à cartela de cores de uma nova coleção. A prática reduz a necessidade de novas compras, evita estoques excedentes e amplia o aproveitamento dos materiais existentes.
Na etapa de desenvolvimento, modelagem, peça-piloto e ficha técnica também funcionam como ferramentas de controle. A elaboração cuidadosa dos moldes e a utilização de recursos digitais podem contribuir para reduzir erros e otimizar o encaixe das peças no tecido. Na produção, o planejamento orientado pelas vendas evita a fabricação desnecessária de peças e reduz o consumo de insumos e o espaço destinado à estocagem. A automatização do mapeamento dos moldes para o corte aparece como outra possibilidade para diminuir a geração de retalhos.
O destino das sobras também pode ser pensado dentro de uma lógica de aproveitamento. Essa perspectiva aproxima o design dos princípios da economia circular, ao considerar que os materiais não precisam necessariamente terminar seu ciclo quando deixam de cumprir a função inicialmente planejada. O planejamento do produto pode incorporar desde a escolha da matéria-prima até as possibilidades de reaproveitamento, reparo e destinação. Na indústria do vestuário, analisar esse ciclo permite compreender melhor a relação entre fornecedores, matérias-primas, produção, distribuição, uso e descarte.
A mudança também envolve a relação com o consumidor. A extensão da vida útil das peças, por meio de ajustes, reparos e reformas, é uma das possibilidades apontadas para ampliar o aproveitamento dos produtos. O pós-venda pode incorporar serviços de manutenção e até sistemas de recolhimento de peças que deixaram de ser utilizadas, criando novas oportunidades para sua reinserção no ciclo produtivo.
As informações foram extraídas da dissertação de mestrado Design na Indústria do Vestuário: princípios da sustentabilidade ambiental como estratégia para auxiliar na redução de resíduos têxteis no segmento de Moda Festa, defendida por Stella Teles Barros no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sob orientação da professora Viviane dos Guimarães Alvim Nunes.
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