Sustentabilidade Agronegócio Políticas e regulação

Sustentabilidade no campo passa por um fator decisivo: entender o que motiva o produtor rural

A sustentabilidade faz parte da rotina de milhares de produtores rurais brasileiros, que conciliam produção de alimentos, preservação ambiental e cumprimento da legislação. Mas o que leva um agricultor ou pecuarista a ampliar voluntariamente as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente ou aumentar...

Modelo da Teoria do Comportamento Planejado (adaptado de Ajzen, 1991)

A sustentabilidade faz parte da rotina de milhares de produtores rurais brasileiros, que conciliam produção de alimentos, preservação ambiental e cumprimento da legislação. Mas o que leva um agricultor ou pecuarista a ampliar voluntariamente as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente ou aumentar a conservação de áreas nativas acima do que é exigido pelo Código Florestal?

Na dissertação de mestrado "As crenças dos produtores rurais sobre ampliar suas áreas de Reserva Legal e de Proteção Permanente", defendida no Programa de Pós-Graduação em Agronegócios da Universidade Federal da Grande Dourados, sob orientação do professor João Augusto Rossi Borges e coorientação do professor Davi José Bungenstab, o pesquisador Artur Henrique Leite Falcette investigou como produtores do Cerrado sul-mato-grossense percebem a possibilidade de preservar áreas além do mínimo exigido pelo Código Florestal.

Foram entrevistados 21 produtores rurais do Mato Grosso do Sul, utilizando como base a Teoria do Comportamento Planejado, abordagem amplamente utilizada para compreender como crenças, normas sociais e percepção de controle influenciam decisões humanas.

Modelo da Teoria do Comportamento Planejado (adaptado de Ajzen, 1991)
O modelo tradicional da teoria do comportamento planejado (adaptado de Ajzen, 1991).

Os resultados revelam um cenário bastante representativo da realidade do campo brasileiro. De um lado, os entrevistados reconhecem que ampliar áreas de Reserva Legal (RL) e Áreas de Preservação Permanente (APP) traz benefícios ambientais importantes, como a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos e a melhoria da qualidade ambiental da propriedade. Por outro, muitos associam essa decisão à perda de área produtiva e, consequentemente, à redução da rentabilidade da atividade agrícola.

Outro aspecto identificado é a influência do ambiente social. Segundo os entrevistados, organizações ambientalistas tendem a apoiar iniciativas de conservação voluntária, enquanto parte dos grupos ligados ao setor produtivo poderia enxergar essas medidas com resistência, reforçando o peso da percepção social sobre as decisões individuais.

A principal contribuição do estudo está na identificação de um caminho para aproximar produção e conservação. Em vez de depender exclusivamente de mecanismos punitivos, os produtores apontam que incentivos econômicos poderiam estimular a preservação além das exigências legais. Entre eles estão a redução ou isenção de impostos, melhores condições de financiamento e programas de remuneração pelos serviços ambientais prestados pelas propriedades rurais.

Nesse contexto, ganha relevância a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PNPSA), criada justamente para incentivar a conservação por meio de mecanismos de remuneração aos proprietários que preservam a vegetação nativa e adotam práticas sustentáveis. A pesquisa sugere que instrumentos como esse têm potencial para ampliar a adesão voluntária à conservação, desde que sejam estruturados de acordo com a realidade e as expectativas dos produtores.

O estudo evidencia que a sustentabilidade depende da construção de políticas públicas capazes de alinhar benefícios ambientais e viabilidade econômica. Afinal, conservar não é apenas uma questão de consciência ambiental, mas também de criar condições para que essa decisão faça sentido para quem produz.

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