Arquitetura bioclimática integra mercado público à paisagem amazônica em Macapá

Anteprojeto do novo Mercado Público Municipal, na área do Igarapé das Mulheres, em Macapá (AP), une ventilação cruzada, cobertura ampla, madeira e simulações computacionais para o clima quente e úmido.

Atracadouro do Igarapé e o Mercado do Pescado, em Macapá (AP)

Em uma região de clima quente e úmido, a arquitetura precisa considerar a circulação dos ventos, a proteção contra a incidência solar e a relação entre a edificação e o ambiente externo. Ao mesmo tempo, deve reconhecer a história e os hábitos da população que utiliza esse espaço. Esses aspectos orientaram o anteprojeto de um novo Mercado Público Municipal para a área do Igarapé das Mulheres, em Macapá (AP).

A paisagem foi um dos elementos determinantes para a concepção do projeto. A relação entre o Rio Amazonas e a cidade, o tráfego de embarcações, a comercialização de produtos regionais e as construções características das áreas à beira-rio foram considerados referências para a linguagem arquitetônica. A intenção foi criar uma edificação contemporânea que preservasse elementos de identificação com a cultura local, sem reproduzir de maneira literal as construções existentes.

Macapá está localizada na Zona Bioclimática 8, caracterizada pelo clima quente e úmido. O projeto considerou essas características desde a implantação do edifício e a definição de sua volumetria até a escolha dos materiais e das aberturas. Entre as soluções estão grandes aberturas nas fachadas, que favorecem a ventilação cruzada, e uma cobertura ampla, concebida para proteger os ambientes da incidência direta do sol. Também foram consideradas aberturas na estrutura da cobertura para permitir a saída do ar quente, além do uso de acabamentos claros e materiais com características adequadas ao desempenho térmico.

A vegetação aparece como outro componente da estratégia, contribuindo para o sombreamento das áreas externas e para a qualificação dos espaços de circulação e convivência. A organização dos volumes também busca evitar barreiras à passagem dos ventos, favorecendo não apenas a ventilação no interior do mercado, mas também o conforto térmico de quem circula pelo entorno.

Uma das características marcantes da proposta é a permeabilidade visual da edificação. Para isso, foram previstas esquadrias com eixo central pivotante, que permitem abrir os ambientes para a paisagem externa e, ao mesmo tempo, manter condições de segurança quando fechadas. A solução reforça a conexão entre o mercado e o Igarapé das Mulheres, trazendo elementos da paisagem para a experiência dos usuários no interior do edifício.

Na escolha dos materiais, a madeira, presente nas construções informais da área e associada à paisagem amazônica, foi incorporada aos painéis e acabamentos. A estrutura metálica permite vencer vãos maiores com leveza, enquanto o concreto armado contribui para a resistência, a durabilidade e a organização dos espaços.

Para avaliar as decisões relacionadas à ventilação e à incidência solar, foram realizadas simulações computacionais com os softwares Autodesk Flow Design e Dynamic Overshadowing. As análises consideraram diferentes direções dos ventos e horários do dia. As simulações também permitiram observar a contribuição da cobertura e das aberturas para o sombreamento e a circulação do ar.

As informações foram extraídas da dissertação Anteprojeto de mercado público municipal: estudo da paisagem local com aplicação de estratégias bioclimáticas para o clima quente-úmido na cidade de Macapá/AP, defendida por Luciana Carvalho da Silva, no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Projeto e Meio Ambiente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), sob orientação do professor Paulo José Lisboa Nobre.

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