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Publicado em 24 de novembro de 2022 por Mecânica de Comunicação

Sustentabilidade e Territorialidade como diferenciais na indústria da moda

Atualmente, a indústria da moda está ancorada sob um modelo de crescimento incompatível com a sustentabilidade ambiental, na medida em que depende do aumento quantitativo da produção. A maioria das iniciativas para uma moda mais sustentável restringe-se à substituição de matérias primas e à gestão do ciclo de vida, que são abordagens que buscam mitigar os impactos ambientais resultante das etapas de produção e distribuição do produto.

Ainda que tragam uma série de contribuições para a sustentabilidade, essas abordagens possuem efeitos limitados pois se adequam à racionalidade hegemônica, sem modificar o modus operandi dos sistemas de produção. Os processos produtivos voltados à redução dos custos são projetados sob um viés ideológico que sustenta as distâncias hierárquicas e a concentração de poder na indústria da moda. Para promover mudanças mais profundas, é necessário aproximar produtores, fornecedores e consumidores, e modificar as estruturas que modelam os atuais sistemas de produção e consumo.

Desse modo, os designers de moda devem, antes de mais nada, evitar os mecanismos de obsolescência, por meio do desenvolvimento de produtos mais duráveis, versáteis e atemporais. Para que sejam capazes de atender as demandas sociais e ambientais, é necessário que os novos arranjos tecnológicos estejam orientados ideologicamente pelo conceito da qualidade social, em que o bem-estar de cada grupo depende das condições de bem-estar de todos os outros grupos envolvidos.

Nesse sentido, a sustentabilidade e a territorialidade podem ser utilizadas como base diferencial não somente para o design do produto, mas também para a identificação de nichos que surgem a partir das dinâmicas locais. Ao identificar demandas específicas do território, bem como os recursos locais capaz de solucioná-las, o designer poderá desenvolver soluções mais complexas e sofisticadas que dependem do conhecimento tácito, ou seja, do acúmulo de conhecimentos que resultam da convivência, das experiências compartilhadas e dos saberes locais.

A territorialidade e a sustentabilidade também podem contribuir para o desenvolvimento de produtos dotados de uma narrativa própria e diferenciados em aspectos que são valorizados pelo consumidor final. A cultura local é palco de referências estéticas que estabelecem uma relação de alteridade ou de oposição em relação às tendências dominantes. Essas referências devem ser incorporadas sob um viés estratégico, de forma que os produtos locais sejam mais autênticos, mais rastreáveis ou mais exclusivos – em comparação com produtos fabricados em larga escala.

Produtos locais devem se diferenciar dos produtos fabricados em larga escala não somente pela singularidade estética, mas por terem sido produzidos por sistemas mais compatíveis com a sustentabilidade ambiental e social. Além disso, a capacidade de encontrar meios sustentáveis para as operações pode representar uma vantagem competitiva para empresas locais, na medida em que cria um valor de longo prazo para um segmento de mercado cada vez mais consciente das consequências sistêmicas do excesso de produção e de consumo.

As informações acima foram extraídas da dissertação de mestrado Relações entre moda e o binômio sustentabilidade e territorialidade, defendida por Patricia Affonso Gaspar, no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, sob orientação do professor Décio Estevão do Nascimento.